Contos – Leitura para o dia 07/11

outubro 16, 2008

Latricério
(Stanislaw Ponte Preta)

Tinha um linguajar difícil, o Latricério. Já de nome era ruinzinho, que Latricério não é lá nomenclatura muito desejada. E era aí que começavam os seus erros.

Foi porteiro lá do prédio durante muito tempo. Era prestativo e bom sujeito, mas sempre com o grave defeito de pensar que sabia e entendia de tudo. Aliás, acabou despedido por isso mesmo. Um dia enguiçou a descarga do vaso sanitário de um apartamento e ele achou que sabia endireitar. O síndico do prédio já ia chamar um bombeiro, quando Latricério apareceu dizendo que deixassem por sua conta.

Dizem que o dono do banheiro protestou, na lembrança talvez de outros malfadados consertos feitos pelo serviçal porteiro. Mas o síndico acalmou-o com esta desculpa excelente:

— Deixe ele consertar, afinal são quase xarás e lá se entendem.

Dono da permissão, o nosso amigo — até hoje ninguém sabe explicar por quê — fez um rápido exame no aparelho em pane e desceu aos fundos do edifício, avisando antes que o defeito era “nos cano de orige”.

Lá embaixo, começou a mexer na caixa do gás e, às tantas, quase provoca uma tremenda explosão. Passado o susto e a certeza de mais esse desserviço, a paciência do síndico atingiu o seu limite máximo e o porteiro foi despedido.

Latricério arrumou sua trouxa e partiu para nunca mais, deixando tristezas para duas pessoas: para a empregada do 801, que era sua namorada, e para mim, que via nele uma grande personagem.

Lembro-me que, mesmo tendo sido, por diversas vezes, vítima de suas habilidades, lamentei o ocorrido, dando todo o meu apoio ao Latricério e afirmando-lhe que fora precipitação do síndico. Na hora da despedida, passei-lhe às mãos uma estampa do American Bank Note no valor de quinhentos cruzeiros, oferecendo ainda, como prêmio de consolação, uma horrenda gravata, cheia de coqueiros dourados, virgem de uso, pois nela não tocara desde o meu aniversário, dia em que o Bill — o americano do 602 — a trouxera como lembrança da data.

Mas, como ficou dito acima, Latricério tinha um linguajar difícil, e é preciso explicar por quê. Falava tudo errado, misturando palavras, trocando-lhes o sentido e empregando os mais estranhos termos para definir as coisas mais elementares. Afora as expressões atribuídas a todos os “malfalantes”, como “compromisso de cafiaspirina”, “vento encarnado”, “libras estrelinhas”, etc., tinha erros só seus.

No dia em que estiveram lá no prédio, por exemplo, uns avaliadores da firma a quem o proprietário ia hipotecar o imóvel, o porteiro, depois de acompanhá-los na vistoria, veio contar a novidade:

— Magine, doutor! Eles viero avalsá as impoteca!

É claro que, no princípio, não foi fácil compreender as coisas que ele dizia mas com o tempo, acabei me acostumando. Por isso não estranhei quando os ladrões entraram no apartamento de Dona Vera, então sob sua guarda, e ele veio me dizer, intrigado:

— Não compreendo como eles entraro. Pois as portas tava tudo “aritmeticamente” fechadas.

Tentar emendar-lhe os erros era em pura perda. O melhor era deixar como estava. Com sua maneira de falar, afinal, conseguira tornar-se uma das figuras mais populares do quarteirão e eu, longe de corrigir-lhe as besteiras, às vezes falava como ele até, para melhor me fazer entender.

Foi assim no dia em que, com a devida licença do proprietário, mandei derrubar uma parede e inaugurei uma nova janela, com jardineira por fora, onde pretendia plantar uns gerânios. Estava eu a admirar a obra, quando surgiu o Latricério para louvá-la.

— Ainda não está completa — disse eu — falta colocar umas persianas pelo lado de fora.

Ele deu logo o seu palpite:

— Não adianta, doutor. Aí bate muito sol e vai morrê tudo.

Percebi que jamais soubera o que vinha a ser persiana e tratei de explicar à sua moda:

— Não diga tolice, persiana é um negócio parecido com venezuela.

— Ah, bem, venezuela — repetiu.

E acrescentou:

— Pensei que fosse “arguma pranta”.

 

 

O arquivo

(Victor Giudice)

            No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
            joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada.

Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

 A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

 

Uma História de Ladrão

(Paulo Mendes Campos)

Uma senhora de Ipanema, indo à cidade em dia de festa, teve a bolsa roubada com todas as jóias dentro. No dia seguinte, desesperada das providências policiais, recebeu um telefonema:

– É a madame de quem roubaram a bolsa ontem?

– Sim.

– Aqui é o ladrão, madame.

– Mas como… Você descobriu meu número?

– Olhei primeiro na carteira de identidade e depois consultei a lista telefônica.

– Ah, é verdade. E quanto tempo quer para devolver minhas… meus objetos?

– Nada madame.

– Não estou entendendo.

– Aconteceu o seguinte: sou um homem casado…

– Pelo fato de ser casado, não preciso andar roubando. Onde estão as minhas jóias, seu sujeito ordinário?

– Vamos com calma, madame. Preste atenção: só ontem, por descuido meu, minha mulher descobriu que eu sou realmente. A senhora não imagina o drama que foi lá em casa.

– Escute uma coisa: eu não estou aqui para ouvir graçolas de um ladrão descarado…

– Não é graçola, madame. O caso é que gosto mesmo da minha mulher.

– E que é que eu tenho com isso? O que me interessa são as minhas jóias e a carteira de identidade (dá um trabalho danado tirar outra) e não tenho a mínima com sua vida particular. Quero aquilo que for meu, só.

– Claro, madame, claro. Estou telefonando por isso. Imagine a senhora que a minha mulher ameaçou de ir pra a casa da mãe se eu não regenerar imediatamente…

– Inocentezinha! Ir num papo deste.

– Pois eu prometi para ela nunca mais roubar em minha vida.

– E ela bancou a pateta de acreditar?

– Tenho minhas dúvidas. Mas o que eu prometo, cumpro, sou um homem de palavra.

– Está é fina: um ladrão de palavra! As minhas jóias, naturalmente, já foram vendidas! Qual é afinal a sua jogada?

– As suas jóias estão em meu poder, madame.

– E quanto quer por elas, diga logo.

– Não estou vendendo, quero devolvê-las, madame. Infelizmente minha mulher disse que só acreditaria na minha regeneração seu eu lhe devolvesse as jóias. Depois ela vai bater um fio para a senhora e checar.

– Eu também sou uma mulher de palavra.

– Acontece o seguinte, madame: nós, os desonestos, não acreditamos na palavra dos honestos. Morou?

– Legal. Como o senhor achar melhor. Qual sua idéia?

– Estou aqui bolando um jeito de lhe mandar as jóias sem perigo pra mim e pra senhora.

– Sem perigo pra mim como?

– Se que outro ladrão possa roubar as jóias. Tem alguma sugestão?

– O senhor entende disso mais do que eu.

– Claro. Ah tenho um plano: eu lhe mando umas flores com as jóias dentro de um pequeno embrulho.

– Não seria mais seguro eu ir encontrá-lo na esquina?

– Negativo. Tenho o meu pudor, madame. Negativo.

– Mas não há perigo mandar coisas de valor por uma casa de flores?

– Não. Vou seguir o entregador a certa distância.

– Perfeito. Fico esperando. Não se esquece, por favor, da carteira.

– Dentro do uns vinte minutos está tudo aí.

– Bem, sendo assim, muito agradecida. O senhor até se parece com o bom ladrão. Recomendações a sua senhora.

             Dentro do prazo marcado, um menino confirmava que em certas ocasiões, até os ladrões mandam flores e jóias.

 

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